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A Loucura da Cruz
Aproxima-se a celebração da Páscoa. Esta
é a festa da vitória da Vida sobre a
morte ou a festa da conversão da morte
em canal para a Vida ou ainda a festa da
recriação do ser humano ferido pelo
pecado.
Essa grandiosa realidade é expressa por um símbolo muito
significativo para os cristãos: a cruz. Esta era no mundo
pré-cristão o patíbulo da ignomínia, reservada aos
escravos e ao rebutalho da sociedade. O crucificado era
geralmente privado de sepultura e abandonado aos animais
selvagens e às aves de rapina. Dizia Cícero que a "cruz
era o suplício mais cruel e mais repugnante", e Sêneca a
tachava de "poste infamante e sinal de vergonha".
Pois bem; Deus Filho feito homem quis assumir o suplício da cruz. Ele, o
Santo e Inocente... a fim de mudar-lhe o significado, pois fez da cruz o
preâmbulo da ressurreição. Ele nada
devia à morte; por isso atravessou a
morte e reapareceu como nova criatura.
Esta inversão dos significados podia
parecer loucura aos olhos da razão, como
aliás atesta um gráfico encontrado na
colina do Palatino em Roma: é aí
representado um homem em oração diante
da imagem de um Crucificado com cabeça
de burro; uma inscrição explicava:
"Alexâmenos adora o seu Deus"... São
Justino refere: "Os pagãos dizem que a
nossa demência consiste em colocar um
homem crucificado em segundo lugar,
depois de Deus imutável e eterno, Deus
criador do mundo" (Apologia I 13,4). Os
judeus pensavam do mesmo modo ao
dizerem: "Colocais vossa esperança num
homem que foi crucificado".
Os cristãos, a princípio, sentiram o desconcerto provocado pela
reviravolta. Não ousavam representar
Cristo na cruz, mas ornavam-na com
pedras preciosas e flores: tencionavam
assim caracterizá-la como o trono em que
reina o Senhor da glória. Observavam que
a cruz estende sua haste vertical e seus
braços na direção dos quatro pontos
cardeais, de modo que S. Irineu († 202)
podia escrever, aludindo a essa dimensão
cósmica da Cruz: "o autor do mundo no
plano visível contém todas as coisas
criadas e encontra-se gravado (em forma
de cruz) em toda a criação” (Contra as
Heresias V 18,3).
Ora todo cristão é chamado a carregar uma parcela da cruz de Cristo.
É para desejar que a carregue em atitude
de Páscoa, ciente de que está sendo
acompanhado pelo Autor da Vida, que
venceu a morte num duelo admirável.
Lembre-se do Apóstolo São Paulo: vítima
de achaques diversos, podia escrever,
salientando o paradoxo ou a loucura da
Cruz: "É na fraqueza (do homem) que a
força (de Deus) manifesta todo o seu
poder... Por isto eu me comprazo na
fraqueza, nos opróbrios, nas
necessidades, nas perseguições, nas
angústias por causa de Cristo. Pois,
quando sou fraco, então é que sou forte”
(2Cor 12,9s).
Quem disto está convicto, jamais perde a alegria de Páscoa, pois sabe que
é co-herdeiro com Cristo, é filho no
FILHO bem-amado desde toda a eternidade!
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Diretor da Escola Mater Ecclesiae
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