|
"Amicus Plato, magis
amica Veritas"
“Se Platão é amigo, ainda mais amiga é a verdade”.
Eis uma fórmula muita sábia e corajosa do antigo pensamento
latino. Que diz ela?
Platão, no caso, representa não apenas um homem, um homem
brilhante, mas exprime de modo geral, os valores sensíveis, reais ou
aparentes, que muito podem seduzir a criatura humana. São visíveis
e sonoros em contraste com a Verdade que parece abstrata e vaga: em vez de
satisfazer, pode até dar prejuízos de ordem material. Com efeito;
a verdade pode suscitar, em quem a contempla, duas atitudes:
Medo. Sim; a verdade pode contribuir para me libertar de minhas
paixões ou da escravidão a que me reduzem os meus vícios.
Serei então desinstalado. Ora isto me deixa amedrontado;
Vergonha. Professar a verdade num ambiente que lhe é hostil pode
provocar não somente o medo, mas também a vergonha,... a vergonha de ser
diferente. O chamado "respeito humano" leva não raro a trair a
verdade. A propósito seja recordado o caso de São Pedro em Mt 26,
69-75: traiu a Verdade, mas resgatou-se, confessando três vezes seu amor a
Cristo, conforme Jo 21, 15-17.
Ora o cristão é chamado a lidar com Platão; cujos valores
materiais ele pode estimar. Não o faça, porém, a ponto
de esquecer a Verdade, que, em última análise, é Cristo.
A verdade, de insípida que é no começo da caminhada,
vai-se tornando saborosa e atraente, pois preenche as mais profundas aspirações
do ser humano. Este possui um intelecto que foi feito para a Verdade, de modo
que a falsidade e o erro ferem frontalmente a inteligência humana.
Dirá alguém: o amor à Verdade assim entendido é
exigente e penoso. – Não há dúvida; é notório,
aliás, que o primeiro passo que a Igreja dá quando se trata de
averiguar a santidade de alguém consiste precisamente em verificar se
foi heróico (na prática das virtudes). O heroísmo há
de se tornar familiar ao cristão. Não o heroísmo que é
contemplado e aplaudido por todos, mas o heroísmo de quem aposta uma
corrida não de salto (a qual seria compensada por vibrantes
aclamações), mas uma corrida de fôlego, a qual, quanto mais se
prolonga no silêncio e na paciência indomável, tanto mais
gloriosa é aos olhos do Criador e dos parâmetros definitivos,
embora as criaturas não valorizem tal capacidade de heroísmo. É
este o heroísmo de quem dá um passo, mais um passo, mais um passo...,
sem saber quantos ainda poderá dar, mas ciente de que a vitória é
dos teimosos.
Estas reflexões poderiam brotar, quase na íntegra, da mente de
um sábio latino antigo. Com muito mais razão procedem da mente de um
cristão, para quem a Verdade não é uma teoria apenas, mas é
o próprio Cristo (Jo 14, 6), no qual se encontram escondidos todos os tesouros
da sabedoria e do conhecimento (Cl 2, 3). É de notar, aliás, que o
"testemunho" cristão em grego é dito martyrion,
palavra que implica "professar até o derramamento de sangue".
Possam estes dizeres do mês de abril fazer eco aos Aleluia da
Páscoa, que cantam a vitória da Verdade e da Vida!
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Diretor da Escola Mater Ecclesiae
Versão
para impressão
|