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"Tu viverás"
(Ez 16,6)
O Profeta Ezequiel compara o povo de Israel a uma criança abandonada,
prestes a morrer.
Deus a encontrou debatendo-se em seu sangue e quis dizer-lhe a bela
palavra: "Tu viverás!". Palavra pela
qual anseia todo ser humano criado para
a vida e não para a morte.
Tal palavra, o Criador a repetiu a cada um de nós quando nos chamou à
existência de viventes racionais. E ele
a repete todos os anos por ocasião da
Páscoa ainda com mais ênfase, pois,
mediante Cristo morto e ressuscitado,
uma vida nova nos é comunicada; feitos
filhos adotivos de Deus, comungamos com
a vida do Primogênito através dos
sacramentos do Batismo e da Eucaristia.
E qual seria a finalidade dessa vida nova?
– É ver Deus face-a-face, contemplar a Beleza Infinita sem véus
nem intermediários. E, já que isto não
se dá na presente existência, onde tudo
é limitado e passageiro, aguardamos a
existência póstuma como sendo o
cumprimento de nossas mais profundas
aspirações. A passagem por este mundo
toma as características de preâmbulo de
uma realidade maior chamada
"bem-aventurança celeste". Vale a pena
enfatizar o caráter de preparação e
semeadura que toca à vida presente. Isto
a valoriza mais ainda. O mundo presente,
com suas prementes solicitações, é muito
exigente e tende a fechar nosso
horizonte como se fosse a instância
principal, ficando empalidecido ou mesmo
anulado o interesse pelo além. O
cristão, embora saiba ser peregrino
neste mundo, não pode deixar de cumprir
seus deveres temporais. Ele os cumpre
com grande empenho, pois age não somente
em seu nome, mas também em nome da sua
fé e em nome de Deus (cuja honra corre o
risco de ser escarnecida). Mas, por mais
entregue que esteja às suas abnegações,
o cristão não faz dele um Absoluto, e
sim, etapas passageiras da caminhada
para o Definitivo. O Principal ainda
está por aparecer, será o fruto da
semeadura efetuada todos os dias da
peregrinação terrestre.
Esta perspectiva pode parecer alienante, mas não é tal, ao
contrário, ela impõe mais
responsabilidade ao cristão, pois muitos
julgam Deus e a Igreja em função do bom
ou mau desempenho do cristão na
sociedade. O valor desse olhar dilatado
consiste em lembrar ao cristão que todos
os bens visíveis são pequenos demais
para saciar a capacidade de infinito que
há no homem: existe algo mais, ...algo
mais contido nas palavras do Senhor: "Tu
viverás!": a vida de filho adotivo de
Deus, herdeiro do Pai e co-herdeiro com
Cristo.
Estas ponderações se transformam em prece na redação de Santo
Anselmo:
Que há de fazer,
Ó Senhor Altíssimo,
Que há de fazer
Este teu exilado tão longe?
Que há de fazer este teu servo
Ansioso pelo teu amor
E lançado longe de tua face?
Anseia por te contemplar
E quão grande é a ausência de tua face!
Tu és o meu Deus
Tu és o meu Senhor.
E eu nunca te vi.
No entanto fui criado para te ver.
E ainda não fiz aquilo
Para que fui feito.
Contando com a Intercessão da Virgem
Maria neste mês de maio, que também é
tempo pascoal.
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Diretor da Escola Mater Ecclesiae
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