"Eu sou a Videira, a Verdadeira"

                                       (Jo 15,1)

A imagem da videira era cara aos autores do Antigo Testamento para designar o povo de Israel.

Em Is 5,1-7 o Senhor Deus faz as vezes de Bem-amado, que deu tudo para que a sua videira produzisse bons frutos: construiu uma torre, cavou um lagar...

Que me restava ainda fazer à minha vinha que eu não tenha feito? Quando eu esperava que desse uvas boas, deu apenas uvas azedas” (Is 5,4).

Em conseqüência, a videira foi entregue aos inimigos e levada para o exílio da Babilônia. Lá o Senhor Deus a interpela, mostrando-lhe que a videira só serve para produzir uvas, pois a sua madeira não se presta para a carpintaria; merece então ser queimada (cf. Ez 15,1-8).

Consciente disto, a videira (o povo de Israel) clama ao Senhor no exílio:

Tu a tiraste do Egito, expulsaste nações para plantá-la... Por que lhe derrubaste as cercas para que as feras do campo a devorem?” (Sl 80, 9-14).

A prece de Israel foi atendida. Na plenitude dos tempos o próprio Deus Filho fez-se videira  e assumiu a natureza humana de modo a poder dizer:

Eu sou a videira, a verdadeira, e meu Pai é o viticultor... Permanecei em mim, como eu em vós; aquele que permanece em mim e no qual eu permaneço, produz muitos frutos” (Jo 15,1-5).

Eis o mistério da Encarnação: Deus se faz videira, e videira indefectível. Nessas condições, merece para todas as criaturas humanas a inserção em seu tronco a fim de que possam produzir fruto múltiplo.

A vida do cristão não é simplesmente a de um animal racional, mas é a de um ramo da videira Cristo, que no cristão produz seus frutos. “Vivo eu, não eu; é Cristo que vive em mim”, diz São Paulo (Gl 2,20).

Com outras palavras ainda: se a celebração litúrgica da Páscoa terminou no domingo de Pentecostes, a vivência da Páscoa não terminou; o cristão morre diariamente com Cristo para o pecado e abre espaço para que a vida de Cristo nele se expanda e frutifique. Ele, o Tronco de Videira, garante fecundidade indefectível a quem aceite ser enxertado nele.

O Coração de Jesus, cultuado no mês de junho, é a expressão de amor de Deus, que quis fazer-se videira para que os homens vivam da sua seiva.

Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Diretor da Escola Mater Ecclesiae

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