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"Enquanto
temos tempo..."
(Gl 6,10)
Numa importante passagem de seu epistolário, o
Apóstolo lembra a fugacidade do tempo e
a necessidade de o aproveitarmos com
afinco. E por quê? Porque o tempo é a
ocasião da semeadura de valores que
colheremos na vida póstuma; quem semeia
pouco, colherá pouco, mas quem semear
muito, muito colherá (Gl 6, 10; 2Cor 9,
7-9).
Refletindo bem, verificamos que o tempo não é
simplesmente uma dádiva de Deus, mas é
sim o dom básico, sem o qual não pode
haver outros dons. Infelizmente, porém,
este dom nos escapa com facilidade;
passa rápido sem que tomemos consciência
do seu valor porque, muito atarefados,
não conseguimos emergir para fora de
nossas prementes obrigações a fim de
avaliar o seu significado no conjunto da
nossa vida. Há também aqueles para quem
o tempo pouco vale, porque desligado da
sua relação com o Além, de modo que vão
procurar um "passa-tempo" no jogo ou na
bebida...
Ao chegar o fim desta vida terrestre, muitos, olhando
para trás, lamentarão ter perdido o
tempo...; desejariam recomeçar a vida –
o que será impossível; daí a grande
frustração.
A fim de que tal desfecho não ocorra, exorta o
Apóstolo: "Vede cuidadosamente como
andais, não como tolos, mas como sábios"
(Ef 5, 14). E que significa a expressão
"como sábios"? – Sábio, na Escritura, é
aquele que olha para os valores do aquém
sob a luz do Além; coloca regularmente
ante os olhos o Fim de todos os fins, ou
seja, o encontro com o Infinito e
Absoluto, dimensionando cada valor
passageiro com o metro da eternidade.
Quem o faz, não é assustado nem
desinstalado pela dita "morte", mas vê
nesta a consumação de uma carreira
consciente, uma carreira de quem rege o
seu tempo e não é regido pelo tempo.
Mais: quem assim vive, goza de paz, pois
a causa básica que perturba e desmantela
o homem é o desviar-se do Absoluto...
desviar-se ele que foi feito para o
Infinito: "Tu nos fizeste para Ti,
Senhor, e inquieto é o nosso coração
enquanto não repousa em Ti" (S.
Agostinho, Confissões I 1). Estas
reflexões não implicam alienação do
cristão frente aos seus afazeres
temporais, pois, ele sabe que, ao
desempenhar-se de tais deveres, ele joga
não somente com seu nome, mas no nome de
Cristo e da religião, nome este que não
é lícito conspurcar, mas que é preciso
abrilhantar por uma fidelidade generosa
aos compromissos. O cristão não vive só
para si, mas também – e principalmente –
para Aquele que por ele morreu e
ressuscitou (cf. 2Cor 5, 14; Rm 14,
7-9).
Tenha S. Agostinho a palavra final: "Façamos destes
dias um símbolo do dia final. Façamos do
lugar da mortalidade um símbolo do tempo
da imortalidade. Caminhemos depressa
para a morada eterna. "Felizes os que
moram em vossa casa; podem louvar-vos
continuamente" (Sl 84,5)".
Eis algumas ponderações que o mês de Julho – mês do
tempo comum verde, cor da esperança –
nos sugere. Sejam penhor de uma vida
cada vez mais prenhe dos valores
definitivos!
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Diretor da Escola Mater Ecclesiae
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