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"Se
conhecesses o dom de Deus..."
(Jo 10,4)
"Se conhecesses o dom de Deus e quem é que te pede de
beber...", dizia Jesus à Samaritana,
chamando-lhe a atenção para algo melhor
do que a água do poço que ela procurava.
Tais palavras ressoam ainda hoje aos ouvidos do
cristão tentando despertar seu interesse
para uma realidade presente de modo
velado, que poderia oferecer uma
resposta mais plena para os seus anseios
naturais.
Já na vida profana acontece que muitos descobrem
tarde algo que lhes poderia ter sido
útil em ocasiões passadas. Não raro se
ouve dizer: "Se eu tivesse sabido antes,
teria optado por tal ou tal solução do
problema". O próprio Santo Agostinho (†
430) dizia: "Tarde eu te amei, ó Beleza
Infinita, tarde eu te amei...". Quem diz
isto, não pode deixar de experimentar
certa tristeza por haver perdido tempo
ou, quiçá, por ter sido negligente.
Pois bem. No plano da fé ocorre fenômeno análogo.
Todo cristão é um pouco como criança
colocada diante do mistério de Deus. E,
por isto, tende a fazer de Deus um Papai
Bonachão, ou um Banqueiro a quem é
preciso agradar para receber
benefícios... Em Jo 4,10 Jesus quer
dizer ao discípulo que Ele não é um
Papai Grande nem um Banqueiro Grande,
mas é o Amor Grande que primeiro nos
amou (cf. 1Jo 4,19) e nos criou para
fazer-nos participar da sua
bem-aventurança celeste. Uma oração do
Missal Romano proclama:
"Deus onipotente e eterno, que, na grandeza do
vosso amor, ultrapassais os méritos e os
anseios dos que vos suplicam,
conceda-nos o que a oração não ousa
pedir" (Coleta do 27º domingo do
tempo comum).
Compete, pois, ao cristão, enquanto ainda é tempo,
dar atenção a essa advertência do Senhor
Jesus e responder com mais amor ao
Primeiro Amor... Primeiro Amor que os
olhos do corpo não podem ver, mas que se
faz perceptível aos olhos da mente, já
que Deus está presente: 1º) a toda
criatura conservando-a na existência,
pois a existência de cada ser se deve a
um permanente ato criador de Deus; 2º)
além do quê Deus se dá aos fiéis
comunicando-lhes a filiação divina,
penhor da herança definitiva ou "daquilo
que o olho não viu, o ouvido jamais
escutou e o coração do homem jamais
percebeu" (1Cor 2,9). O Deus presente na
terra é o mesmo Deus presente no céu,
que faz a felicidade dos justos na
glória celeste. Verifica-se apenas que
nesta vida Ele está encoberto pelos véus
dos sacramentos, mas pode ser descoberto
mediante a fidelidade generosa de cada
um as aspirações da graça. Ele não força
o convívio, mas atende prontamente a
quem se lhe abre, como Ele mesmo afirma
no Apocalipse: "Eis que estou à porta e
bato. Se alguém escuta meu chamado e
abre a porta, entrarei em sua casa e
cearei com ele e ele comigo" (Ap 3, 20).
O cristão, ciente dessa presença delicada e
misteriosa, mas extremamente generosa,
não tardará a abrir-lhe a porta,
enquanto lhe é dado usufruir o tempo
oportuno ou o Kairós de Deus.
"Se conhecesses o
dom de Deus...". A Virgem do Rosário
ajude seus filhos nessa grande
descoberta!
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Diretor da Escola Mater Ecclesiae
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