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Ser para Maria um outro Jesus
A devoção a Maria SSma., especialmente praticada no
mês de maio, é muitas vezes mal entendida, como se fosse
mariolatria. Na verdade, porém, ela decorre de uma compreensão
exata e bíblica do que é ser cristão.
Com efeito, São Paulo nos diz que somos
predestinados a ser conformes à imagem do Primogênito
Cristo Jesus (Rm 8,29). Isto significa que toda a piedade e
a ascese do cristão devem tender a fazer do cristão um
outro Cristo; nossa espiritualidade é cristocêntrica, pois
fomos, desde toda a eternidade, concebidos pelo Pai em Cristo, como
portadores da marca de Cristo. Afirma também o Apóstolo:
"Todos vós que fostes batizados, revestistes o Cristo"
(Gl 3,27). Revestir, para os antigos, é mais do que trajar uma
peça de roupa; é fazer o papel... no caso: fazer as vezes
do Cristo.
Ora no coração de Jesus havia
dois sentimentos fundamentais: um olhar afetuoso para o Pai, que O gerara
como Deus desde toda a eternidade (sem prioridade de tempo) e outro olhar
filial para Maria, de quem recebera todo o seu ser humano (sem
interferência do varão). Jesus falava freqüentemente do Pai
que o enviara; e ainda no fim de sua vida terrestre mostrou-se
solícito para com sua Mãe entregando-a aos cuidados de
João, filho de Zebedeu e Salomé.
Por conseguinte no cristão configurado
a Cristo devem existir igualmente estes dois sentimentos: um olhar
para o Pai, para quem se dirige toda a vida cristã mediante
o Filho no Espírito Santo, e um olhar para Maria, Mãe de Jesus
e Mãe nossa (cf. Jo 19,25-27). Assim a piedade mariana redunda
naturalmente do cristocentrismo da vida cristã, quanto mais o
cristão for outro Jesus, tanto mais deverá saber que
é filho de Maria. Com outras palavras: a piedade mariana
não é um acréscimo feito às devoções
do cristão (como seria a devoção a Santo Onofre ou
Santa Bárbara), mas está incluída dentro da noção
de ser cristão. Daí a formação sintética
e correta: "Ser cristáo implica tornar-se para Maria um
outro Jesus ou tornar-se um outro Jesus, consciente de sua
filiação mariana".
Estas verdades se tornam claras a quem
aprofunda o estudo do Novo Testamento. É o que fez a Comissão
Teológica Anglicano-Católica nos últimos anos,
chegando à seguinte conclusão publicada aos 20/05/2005 pelo
Pontifício Conselho para a Unidade dos Cristãos:
"Afirmamos juntos que Maria tem um
ministério permanente ao serviço do ministério de
Cristo, nosso único Mediador: Maria e os Santos oram por toda
a Igreja e a prática de pedir a Maria e aos Santos que orem
por nós não é um fator de divisão da
comunhão" (nº 78).
Possam estas palavras contribuir para unir entre si
os irmãos separados sob a tutela da Mãe do Céu!
Como outrora em Caná ela dizia a seu Filho: "Eles não
têm vinho" (Jo 2,3), ela ainda em nossos tempos Lhe diz:
"Eles não têm mais...". E, como em Caná,
Jesus saberá manifestar a sua glória (Jo 2,11).
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Diretor Emérito da Escola Mater Ecclesiae
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