|
"Com Amor Eterno Eu te amei"
(Jr 31,2)
Estas palavras da Escritura significam que Deus nunca
existiu sem amar a cada um de nós.- Tal é a verdade mais
típica do Cristianismo,... verdade que o diferencia de
qualquer religiosidade meramente filosófica ou natural.
Sim; para a filosofia grega, Deus não pode amar o que não é
perfeito, ao passo que, para o Cristianismo, Deus cria
valores e os ama irreversivelmente; Ele não pode dizer Não
após ter dito Sim; mesmo quando recebe um Não da parte da
criatura livre (cf. 2Tm 2, 11-13).
E porque Deus cria valores que Ele ama?
Porque, como diz a Filosofia, o Bem é difusivo ou
comunicativo de si. Ora Deus é o Sumo Bem. Logo é sumamente
comunicativo de si. Ele vê em cada criatura um reflexo da
sua Sabedoria ou uma idéia de Deus que se vai realizando.
Como explicar esse amor diante dos males que ocorrem
na história dos homens?
Deus não pode ser o autor desses males. Eles se devem
à criatura, que, limitada como é, pode agir em desarmonia com
o verdadeiro Bem. Deus não quer, mas permite o mal da
criatura livre, pois não lhe deu uma liberdade teleguiada.
O procedimento de Deus nesses casos consiste em tirar dos
males dos homens bens ainda maiores. Assim o primeiro
pecado foi ocasião de uma recriação do gênero humano
encabeçado por um novo Adão, que nos deu muito mais do que
perdemos com o primeiro Adão. Nem sempre vemos o bem que
resulta de cada mal, mas podemos dizer com a Filosofia
grega: pathos mathos (sofrimento é escola e
educação). O sofrimento burila o ser humano, liberta-o do
egoísmo e o faz mais sequioso dos verdadeiros valores.
Estas verdades são enfatizadas pelo autor
sagrado, quando compara nossas dores à educação que todo
bom pai presta a seus filhos (cf. Hb 12,5-15). O pai que
ama, não deixa seu filho "solto", mas submete-o à disciplina para o bem do educando, ao passo que o filho
bastardo é deixado pelo pai no emaranhado de seus
caprichos. Deus não castiga como o homem castiga, mas
permite que o homem se castigue pelo pecado a fim de que
volte mais consciente para o regaço do pai. É o que insinua
a parábola do filho pródigo: o pai deixa partir o filho
sonhador, para que ele possa voltar à casa paterna enojado
do pecado e mais firme no amor ao pai.
Em suma, podemos dizer: um Deus imperfeito, sem
providência ou autor de males não é Deus. Mais lógico seria
não crer do que crer num Deus omisso ou injusto. Nem sempre
O compreendemos porque Ele vê mais longe do que nós,
harmonizando traços que nos escapam.
Pois bem: é esse amor eterno de Deus
que quis pulsar num coração humano ou no Coração de Jesus;
Ele o quis para dizer-nos que não é indiferente aos nossos
infortúnios, mas os assume e os santifica, tornando-os
canais que levam à vida eterna. Ele se manifestou no século
XVII a Santa Margarida Maria apontando o descaso dos
homens. E exortou à reparação e consagração.
É esta temática que solicita a piedade cristã no mês
de junho.
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Diretor Emérito da Escola Mater Ecclesiae
Versão
para impressão
|