A Parábola do Pan

                          

Parábola é uma história que os mestres colocam ao lado de (pará, em grego) uma verdade de nível superior a fim de ilustrar o que esta quer dizer. Os sábios não raro encontraram seu deleite em considerar os acontecimentos deste mundo como parábolas do mundo divino. O cristão não se furta a isto; ele procura descobrir a transparência da história, ciente de que a história dos homens bem pode clarear o plano de Deus.

Ora entre os recentes eventos-parábolas pode-se assinalar a disputa atlética que se dará nos Jogos Pan-Americanos. Vários países poderão acompanhar os jogadores no seu empenho quase sobre-humano para conquistar as medalhas. Já nos tempos de São Paulo se verificava tal esforço atlético em vista das Olimpíadas. Levando-o em conta, escrevia o Apóstolo:

“Os atletas se abstêm de tudo; eles para ganhar uma coroa perecível; nós, porém, para ganhar uma coroa imperecível. Quanto a mim,... pratico o pugilato não como quem fere o ar, ao incerto. Trato duramente o meu corpo e o reduzo à servidão” (1Cor 9, 25-27).

Ao considerar a conduta do atleta disciplinado, o cristão se estimula a seguir com muito mais ânimo a sua vocação. Se o homem contemporâneo se entrega à ascese ou abstinência por motivos de saúde, trabalho, peleja esportiva, vaidade,... quanto mais não deverá o discípulo de Cristo praticar o autocontrole, abstendo-se de tudo quanto seja incoerente com o chamado para o Prêmio Eterno?! Seria vergonhoso, para um cristão, ficar aquém da coragem dos artistas de novela e dos jogadores de futebol.

Mas dirá alguém: A coroa imperecível é invisível, ao passo que a perecível é visível e, por isto, mais atraente - Em resposta reconhecemos o que foi dito, mas acrescentamos-lhe um reparo: o Invisível se faz perceptível não aos olhos humanos, mas à experiência de quem O procura sinceramente; o Deus oculto se torna manifesto aos seus fiéis, comunicando-lhes desde já um certo antegozo da vida eterna, de modo que a ascese - dever penoso - se converte em prática espontânea, altamente compensada pela resposta divina. Importa muito, no caso, ter a fortaleza de ânimo para começar vencendo as primeiras resistências; “Deus ama a quem dá com alegria”, diz o Apóstolo (2Cor 9, 7). Magnanimidade ou grandeza de Alma, ao invés de mesquinhez e pusilanimidade, é atitude indispensável do bom cristão.

Mas: se o Invisível não está presente aos olhos físicos, Ele se deixa atingir de outro modo, ainda mais valioso. Com efeito, escreve o mesmo Apóstolo: “Trazemos um tesouro em vaso de argila” (2Cor 4, 7). O vaso de argila é nossa corporeidade frágil e mortal; nesse invólucro vive Deus como em seu templo, muitas vezes sem que o(a) dono(a) da argila tenha plena consciência disto; todavia quem se acostuma a dizer um Sim generoso a este Hóspede interior, descobrirá cada vez mais a sua gratificante presença e gozará das primícias da vida eterna.

A parábola dos Jogos Pan-Americanos me ensinou a não ser menos corajoso e aplicado do que os astros do esporte.

 

Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Diretor Emérito da Escola Mater Ecclesiae

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