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"Viver para sempre"
Escapar da morte física e gozar de bons momentos na vida
presente talvez sejam promessas que satisfaçam a certas pessoas.
Afinal, muitas são as notícias que expõem como a
medicina e a tecnologia contemporânea se esmeram em tentar proporcionar
ao homem a imortalidade corporal. Porém, outras pessoas preferirão
refletir um pouco sobre o assunto. É o que vamos fazer.
Os bons períodos da vida neste mundo são fugazes e
sempre ameaçados por fatores contrários. O filósofo
Aristóteles († 322 a.C.), que contava com esta vida, julgava ser
raro lograr felicidade neste mundo; com efeito, a bem-aventurança
na vida presente requer saúde, suficiência de bens materiais,
apoio de amigos..., elementos que dificilmente se conjugam. Donde a pergunta:
não haveria, para o ser humano, dotado de nobres aspirações
congênitas à Verdade, ao Amor, à Justiça, à
Vida... uma resposta mais densa do que a passageira felicidade deste mundo?
Existem, na verdade, aqueles que comparam a amplidão de seus anseios
inatos com a estreiteza dos bens materiais, e em conseqüência, julgam
que a Natureza (ou melhor: o Criador), que fez o homem tão irrequieto,
deve ter preparado para ele algo mais pleno e cabal. A fé confirma
esta conclusão e nos diz que o homem pode aspirar "ao que o
olho não viu, o ouvido não ouviu e o coração do
homem jamais percebeu" (1Cor 2,9). A fé explana a realidade
do homem em termos grandiosos: cada um(a) de nós é uma
idéia de Deus, concebida pelo Pai desde toda a eternidade, criada
em carne e osso no tempo oportuno e posta na terra para desenvolver suas
potencialidades e chegar à plena estatura; quando o Pai o julgar
conveniente Ele chamará esse(a) filho(a) de volta ao seu regaço
para usufruir da bem-aventurança do próprio Deus (e não
apenas a que valores transitórios podem comunicar). Esse olhar
dilatado possibilita-nos dizer à semelhança de Cristo:
"Saí do Pai e vim para o mundo; de novo deixo o mundo e vou
para o Pai" (Jo 14,28). O nosso tempo está prenhe de
eternidade; procede da eternidade, sente os apelos dela e volta para a
eternidade. Não queira o cristão contentar-se com menos do que
isto.
E a morte que causa tanta repulsa? – A repulsa natural é
superada pela convicção de que após Cristo a morte
se tornou Páscoa, isto é, passagem... passagem do
provisório para o definitivo, do mundo dos bens finitos para a
Fonte rica de todos os bens. Quem vive com Cristo, morrerá como
Cristo morreu, numa entrega total ao Pai, que recebe a criatura no oceano
da sua vida.
Conscientes disto, muitos Santos, em vez de repelir a morte,
desejaram-na ansiosamente como entrada na Vida, uma vez terminado o
preâmbulo terrestre. Tal foi o caso de Santo Antão († 356),
que deixou o deserto para tentar sofrer o martírio em Alexandria;
Santa Teresa de Ávila († 1582) exclamava: "Morro porque
não morro!".
Possam estas verdades despertar nos leitores a
consciência de que já são imortais não no
plano finito (que é pequeno demais para saciá-los), mas no
plano do Infinito, para o qual foram feitos!
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Diretor Emérito da Escola Mater Ecclesiae
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