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"Muitos não puderam quando deviam
poder,
porque não quiseram quando podiam"
(Anônimo)
Tal é a expressão de uma dura realidade; ...a
realidade de haver perdido um grande valor por negligência
própria. A situação assim configurada não é rara e sugere
algumas reflexões
Transitoriedade... As boas
oportunidades se apresentam e não voltam; caso não sejam
aproveitadas, ficam para sempre perdidas. Consciente disto,
exortava o Apóstolo os seus leitores a que não se deixassem
dominar pelos valores passageiros deste mundo, pois são
insuficientes para preencher o vazio do coração humano:
"Passa a figura deste mundo (1Cor 7,31), pois o
homem foi feito para o Infinito ou Absoluto, que as
criaturas transitórias velam e revelam. Não contemplamos as
coisas que se vêem, mas as que não se vêem, pois o que se
vê, é transitório, mas o que não se vê, é eterno" (2Cor 4,18).
Vigilância... Se tal é a condição do homem
sobre a Terra, importa viver cada momento de maneira
consciente, como quem dirige sabiamente a sua vida, e não
como quem é jogueteado como peteca pelo embate das ondas. A
natureza humana tende a se cansar de vigiar e a se entregar
à superficialidade de vida. Muitos esquecem o por quê e o
para quê existem e vivem unicamente para o momento
presente, correndo o risco de despertar tarde demais,
quando já não houver solução.
Kairós... Este vocábulo grego designa o tempo
não apenas como quantidade (chrónos, ou mais
dias, mais meses e anos), mas como qualidade; é o tempo
oportuno, que tem por preço o sangue de Nosso Senhor Jesus
Cristo. O tempo todo do cristão é Kairós, pois cada
minuto tem sua repercussão na eternidade; é um tijolinho
que constrói a mansão eterna do homem viandante. Verdade é
que o tempo pode parecer às vezes longo e enfadonho: daí a
procura de passa-tempos para "matar o tempo". A quem assim
procede é conveniente lembrar que até as horas de inércia
obrigatória, marcadas pelo silêncio e o tédio podem ser
altamente fecundas, pois o cristão as pode preencher com a
oração silenciosa. Com efeito; orar não requer fazer
discursos para Deus, mas estar na presença dele em atitude
de adoração, que muito fala ao Senhor pois professa a
inefabilidade de Deus. "Tibi silentium laus. Para Ti
o silêncio é louvor", diziam os antigos.
A fim de evitar a grande frustração final,
recomenda-se a fórmula: "Viver cada dia como se fosse o
Primeiro, o Último e o Único"; isto é: com o entusiasmo
beneficamente sonhador do primeiro dia, com a experiência
lúcida do último dia e com a sofreguidão santamente ciosa
do último dia.
"Quereis cantar louvores a Deus? Sede vós mesmos o
canto que ides cantar. Vós sereis o seu maior louvor, se
viverdes santamente" (S. Agostinho, sermão 34,6).
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Diretor Emérito da Escola Mater Ecclesiae
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