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"O
teu mais belo canto de louvor"
Em seus sermões Santo Agostinho trata freqüentemente de cantar os louvores de Deus, proferindo um canto novo: o
canto do cristão redimido por Cristo. Insiste em dizer que esse canto há de ser a expressão de uma vida nova, e acaba,
não raro, afirmando que o mais belo canto que alguém possa entoar em louvor de Deus é o canto da própria vida pautada
segundo a lei do Senhor.
Por conseguinte a vida fiel do cristão é um louvor a Deus, mas a contraparte também é
verídica: uma vida infiel é desonra a Deus. O pecado conculca não somente seu nome, mas conculca também a honra
de Deus. Já no Antigo Testamento o Senhor censurava seu povo por enxovalhar o nome de Deus entre os povos pagãos;
cf. Ez 36,21s; Is 52,5; Rm 2,24.
Com outras palavras: sobre cada cristão pousa a glória de Deus, que se revelou por Jesus Cristo como
precioso tesouro destinado a toda a humanidade. O cristão não joga apenas com seu nome, mas joga também com o de
Deus, o de Jesus Cristo e o de sua Santa Igreja. Quem vive retamente deixa transparecer aquele tesouro em vaso de
argila que é cada cristão (cf. 2Cor 4,7) e pode levar muitos irmãos a discernir a face de Deus esboçada em seus
fiéis. Mas quem vive indignamente, suscita a descrença e o desprezo dos seus semelhantes pelos mais importantes
valores que existem: o amor de Deus aos homens, amor gratuito e irreversível ("Ele primeiro nos amou", 1Jo 4,10)
e a comunhão com Deus mesmo mediante a graça santificante. Esse contra-testemunho escandaliza os não cristãos e os
leva a rejeitar o único Bem que não pode ser rejeitado. Os mais recentes documentos da Igreja têm apontado, entre as
causas do ateísmo contemporâneo, a conduta infiel de pessoas e grupos a quem Deus confiou a nobre tarefa de
honrar. Posso perguntar a mim mesmo: se o ateísmo e o indiferentismo crescem em nossos dias, qual é a minha
responsabilidade perante tal fato? Na série de vasos comunicantes que somos nós, terei deixado de passar adiante
os dons que recebi do Senhor para que, ainda mais abrilhantados, os transmitisse aos meus semelhantes?
Queira-o ou não, estou inserido nessa rede de solidariedade e comunicação que é a humanidade. Não carrego a sós as
conseqüências do mal que cometo, como também não carrego a sós os frutos de uma vida fiel a Deus. É o Apóstolo quem
escreve:
"Ninguém de nós vive e ninguém morre para si
mesmo, porque, se vivemos, é para o Senhor que vivemos e, se
morremos, é para o Senhor que morremos. Portanto, quer vivamos, quer morramos, pertencemos ao Senhor" (Rm 14, 7-8).
Esta grandiosa realidade pode ser expressa ainda com as palavras de João Paulo II:
"Uma alma que se eleva, eleva
o mundo inteiro... E uma alma que se rebaixa, rebaixa o mundo inteiro" (Reconciliação e Penitência nº 16). Possam
os cristãos compenetrar-se da enorme responsabilidade que lhes toca, e façam de sua vida o mais belo canto de louvor,
que leve os seus semelhantes a reconhecer Deus e honrá-lo com igual louvor.
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Diretor Emérito da Escola Mater Ecclesiae
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