Janeiro, mês do recomeço

                                                              

Em janeiro começa novo ano; recomeça a contagem dos meses. Não recomeça em 2008 como em anos anteriores, pois o passar do tempo torna o peregrino mais adulto e experimentado tanto no plano temporal como no espiritual; sim, o homem foi feito para ultrapassar constantemente a si mesmo, como dizia o filósofo francês Blaise Pascal († 1662). O farol do ponto de chegada projeta suas luzes mais brilhantes sobre a face de quem se vai aproximando e lhe manifesta mais claramente o sentido da vida. Afinal, quem sou eu? - A resposta nos diz que cada ser humano é uma idéia de Deus, concebida desde toda a eternidade e feita realidade no tempo,... a fim de que se vá configurando segundo a imagem do irmão mais velho, que é o Cristo Jesus (cf. Rm 8,29).

A fugacidade de dias, meses e anos faz que o tempo seja sempre mais precioso aos nossos olhos. O tempo, com suas oportunidades, passa e não volta; é um pouco da nossa eternidade que assim está em jogo, pois cada minuto tem sua repercussão no além; ou é um tijolinho ou é uma lacuna em nossa mansão definitiva.

O Senhor Jesus recorre à imagem de uma gestação e do parto para ilustrar nossa vivência de cada dia; cf. Jo 16,21. Na verdade, pode-se dizer que estamos em gestação: a primeira gestação ocorreu no seio materno durante nove meses. A mãe dá à luz uma criança, que é um ponto de interrogação; traz virtualidades, que deverão ser desenvolvidas numa segunda gestação, esta aos cuidados de cada um de nós; estamos ainda a nos formar e configurar, dando à nossa fisionomia íntima os traços que nossa diligência ou nossa omissão lhe quiser dar: estamos ainda a nos burilar, esculpir e podar para que se forme em nós a imagem da criatura que o PAI concebeu. Daí a importância do tempo; podemos ser dados à luz definitiva sem ter terminado nossa tarefa de nos configurar a Cristo.

São Paulo propõe o sentido dessa tarefa ao escrever: "Estamos sempre confiantes, sabendo que, enquanto habitamos neste corpo, estamos fora da nossa mansão, longe do Senhor, pois caminhamos pela fé e não pela visão... Preferimos deixar a mansão deste corpo para ir morar junto do Senhor" (2Cor 5,6s). A visão, porém, vai-se esboçando sempre mais nítida não aos olhos da carne, mas através da experiência de Deus, que já no mundo presente nos dá comunhão com sua vida, comunhão que pode facilmente passar despercebida a quem não aprofunda o sentido da caminhada ou do transcurso dos anos.

Janeiro, mês de recomeço,... recomeço mais maduro e adulto, é o que desejamos a todos os nossos leitores.

Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Diretor Emérito da Escola Mater Ecclesiae

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