"É hora de despertar do sono"

                                                               (Rm 13, 11)

O Apóstolo exorta seus leitores a despertar do sono... Estariam dormindo? - O sono, no caso, é a insensibilidade ou uma certa anestesia para os valores definitivos, que são invisíveis aos olhos da carne. Com efeito; toda criatura humana, obrigada a se envolver nas tarefas temporais, corre o risco de esquecer que por trás dos bens materiais existem valores ainda maiores: a união com Deus e o consórcio da sua bem-aventurança para quem procura sinceramente a Deus. É hora, portanto, de sacudir o torpor que nos fecha para a eternidade e esforçarmo-nos por tomar ainda mais viva consciência de que fomos feitos para algo mais estupendo do que os bens passageiros e ilusórios deste mundo. E que bens estupendos são esses? - Santo Anselmo (†1100) responde: "Fui criado para Te ver, Senhor, e até agora ainda não fiz aquilo para que fui criado". O tempo para a demanda dessa meta ou da visão face-a-face é cada vez mais breve e precioso; ele nos pede atenção e vigilância para não nos deixarmos desviar pelo colorido e o sonoro das coisas passageiras. É precisamente isto que São Paulo nos quer dizer justificando a sua exortação: "... pois agora a nossa salvação está mais próxima do que quando abraçamos a fé. A noite está avançada e o dia se aproxima" (Rm 13,12). A imagem da noite que cede ao dia é muito significativa: quanto mais densa e cansativa parece a noite, tanto mais próxima está do seu fim ou do despontar da aurora. Cada dia que vivenciamos é um passo a mais em demanda da Eternidade, que vai lançando seus raios sobre nós.

Estas reflexões vêm a propósito neste mês de fevereiro, que é mês de Quaresma ou do grande retiro espiritual da Igreja. A Quaresma dá um caráter cristológico às considerações acima: ela nos lembra que não caminhamos a sós, mas com o Senhor Jesus, que à nossa frente carregou a sua Cruz para nos obter força no porte de nossas tribulações. Não há quem não tenha recebido a graça de carregar um pouco da Cruz salvífica de Cristo. Notemos bem: a união a Cristo caminheiro não será apenas união de conduta visível, mas terá por principal fruto a configuração íntima do cristão ao Senhor Jesus. A ascese cristã (jejum, esmola, renúncia...) tem em mira corroborar a vida de Cristo em nós; nasceu no coração do cristão quando este foi batizado e se desenvolve sempre mais na medida em que lhe abrimos espaço, a ponto mesmo de podermos dizer com São Paulo: "Vivo eu; não eu, é Cristo que vive em mim" (Gl 2,20).

É hora de despertar do sono para viver mais convictamente a aventura da caminhada com Cristo até o Pai.

Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Diretor Emérito da Escola Mater Ecclesiae

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