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"Eu
vim para que tenham a vida"
(Jo
10,10)
Vários povos antigos narram que a vida dos homens em
seu estado inicial era diferente da atual: viviam homens e
mulheres em mútua amizade e num bom relacionamento com a
Divindade; não estavam sujeitos à morte. Apenas a Divindade
lhes impunha um preceito, que deveriam observar
estritamente sob pena de perder a bonança inicial e ficar
sujeitos à morte. Ora os homens transgrediram a norma
divina e, por isto, hoje estão sujeitos à morte e seus
precursores.
A Bíblia assume essa tradição (naturalmente revestida
de imagens). Os primeiros pais foram criados em bonança,
mas violaram o pacto com Deus. A Escritura Sagrada, porém,
vai mais além: ela ensina que Deus não se quis deixar
vencer pelo mal, mas venceu o mal com o bem (cf. Rm 12,27).
Com efeito; o Pai do céu houve por bem enviar seu Filho ao
mundo, feito novo Adão, para que, como homem e em nome dos
homens, dissesse ao Pai o SIM que o primeiro Adão lhe havia
recusado. Jesus assumiu tudo o que é nosso, exceto o
pecado, e o fez passagem para a Vida; matou a morte
ressuscitando.
Devemos mesmo dizer que muito mais ganhamos por
Cristo do que perdemos por Adão. Sim: o Salvador nos deu
comunhão com a vida do próprio Deus, fazendo-nos
"participantes da natureza divina" (2Pd 1,4) sem
panteísmo. O próprio Jesus o afirma ao dizer: "Assim
como o Pai, que vive, me enviou, e eu vivo pelo Pai, assim
também aquele que de mim se alimenta, viverá por mim"
(Jo 6,57). Há como que um transbordamento da vida eterna do
Pai sobre a Humanidade de Jesus e, por meio da Eucaristia,
esse transbordamento atinge cada cristão fiel. Desta
maneira se entende o que São Paulo escreve: "Vivo eu,
não eu; é Cristo que vive em mim" (Gl 2,20).
Eis o dom que a Páscoa nos traz, como diz o
Apóstolo: "Somos vasos de argila quebradiça, mas
portadora de um tesouro imenso" (2Cor 4,7). Tesouro que
vale mais do que todas as prendas que as criaturas possam
oferecer e que o ladrão não rouba nem o verme desgasta. Tal
tesouro não é sensível; pode estar sufocado por aridez,
cansaço, moléstia..., mas nunca falta onde não haja pecado.
É dessa riqueza interior que promana a coragem dos mártires
assim como a paciência heróica dos que parecem pequeninos,
mas são grandes aos olhos de Deus. Páscoa não teria sentido
se não fosse para nos transmitir, nos moldes que a criatura
comporta, a comunhão de vida com Cristo e, mediante Cristo,
com o Pai.
A todos os nossos internautas, desejamos copiosa
efusão ou poderoso reforço da vida que Jesus veio
trazer-nos. "Eu vim para que tenham a vida... e a tenham
em abundância" (Jo 10,10).
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Diretor Emérito da Escola Mater Ecclesiae
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