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"Senhor,
já é tempo de nos vermos!"
(Santa
Teresa de Ávila)
A morte desperta o repúdio espontâneo de toda
criatura humana. Não obstante, houve, e há, quem a deseje
intensamente. Por quê? - Porque tinham e têm consciência de
que ela não é uma ruptura, mas sim a consumação ou a etapa
final de uma longa caminhada; é o portal da eternidade. O
primeiro a professar esta verdade foi o Apóstolo São Paulo
em sua carta aos Filipenses:
"Para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro...
O meu desejo é partir e estar com Cristo" (1,21.23).
Na tradição cristã encontram-se semelhantes dizeres,
motivados não pela covardia ou pela fuga dos desafios deste
mundo, mas pelo anseio de chegar à plenitude de uma
realidade já possuída germinalmente e tendente a
desabrochar-se por completo. Uma das vozes mais eloqüentes
neste sentido foi a de Santa Teresa de Ávila, que
exclamava: "Senhor, já é tempo de nos vermos!". A Santa
desejava passar da fé à visão face-a-face, da penumbra à
plena claridade. Por isto podia ela dizer: "A vida é uma só
noite em má pousada". A imagem lembra um caminhoneiro que,
em seu longo percurso pelas estradas, tem de passar uma
noite em albergue rodoviário; a pousada há de lhe parecer
muito incômoda, freqüentada também por mosquitos, baratas e
ratazanas... levando a desejar que chegue quanto antes o
fim da noite e a luz do dia. Não há dúvidas, a vida neste
mundo tem seus bons momentos, que são ocasiões de nos
reabastecermos física e psiquicamente para percorrer o
restante da caminhada; mas esses bons momentos não são
pontos de chegada; são trampolins que provocam o mergulho
mais fundo de quem deseja progredir.
Consciente destas verdades, o cristão procura ver a
transparência de tudo o que é sensível. Com efeito; é
normal vivermos solicitados por muitos compromissos, todos
eles com dia e hora marcados, de modo que, quando alguém
acaba de desempenhar-se de uma tarefa, já outra o solicita
e assim por diante... Esses deveres da vida de cada dia
criam uma cortina ou até uma muralha, que impede de ver o
além. Este parece pálido e vago a quem está envolvido nas
tarefas do aquém; parece muito mais importante o "aqui e
agora" com suas exigências do que o futuro ou a
eternidade. Ora é preciso que o cristão aprenda a perfurar
a cortina que lhe fecha o horizonte, para viver o aquém à
luz do além. Na verdade, a escala de valores é construída a
partir do Definitivo e não do passageiro. O cristão há de
viver considerando o temporário com um olhar de eternidade;
cf. 2Cor 4,18.
Possam estas reflexões contribuir para firmar os
passos do peregrino do Absoluto que é cada um de nós!
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
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