"Quando sou fraco, então é que sou forte"

                                       (2Cor 12,10)

Em sua segunda carta aos Coríntios, o Apóstolo apresenta o catálogo de suas dores: além de ter um corpo frágil, São Paulo sofria perseguições, calúnias e opróbrios da parte de cristãos judaizantes, que queriam impor aos pagãos convertidos a observância da Lei de Moisés, Lei que já cumprira seu papel, preparando o povo de Israel para receber o Messias.

Após enunciar tais achaques, o Apóstolo afirma paradoxalmente: “Quando sou fraco, então é que sou forte” (2Cor 12,10). Como entender este paradoxo?

O paradoxo reflete o âmago da vida cristã. O bem que o cristão realiza, ele não o realiza porque seja forte, mas porque a graça de Deus nele habita e o move: “Sem Mim nada podeis fazer”, dizia Jesus (Jo 15,5). Quanto mais despojado de si ou de qualquer presunção, tanto mais aberta está a criatura para ser vivificada pela graça de Deus. Isto não quer dizer que nos podemos entregar à inércia, para deixar o Senhor agir em nós; longe disto, Paulo se esforçava como o atleta no estádio para conseguir não uma coroa perecível, mas uma coroa imperecível (1Cor 9,25-27). Apesar deste esforço, o Apóstolo sentia sua incapacidade para fazer o bem que desejava (Rm 7,17-19) e confiava no dom de Deus: “Infeliz de mim!... Graças sejam dadas a Deus por Jesus Cristo Senhor nosso” (Rm 7,24s).

O paradoxo é incômodo a quem o experimenta. Gostaríamos de ser os próprios autores ou artistas da nossa santificação. Na verdade, porém, esta depende do Supremo Artista, que nos burila, poda e esculpe na medida em que lhe abrimos espaço. Transfiramos estas verdades para a nossa vida cotidiana. O cristão reconhece seus pecados e por eles pede a misericórdia divina. Isto é doloroso, mas, ao mesmo tempo, é salutar; quanto mais despojado de si, tanto mais aberto está o cristão para a graça de Deus. Assim o pecado - que é a pior de todas as desgraças - e não só o pecado grave, mas também a falta leve, pode redundar em benefício do pecador; leva-o a tomar consciência de sua fragilidade e a mais se entregar à graça de Deus: Este resiste aos soberbos, mas atende aos humildes.

É necessário portanto aceitar o paradoxo, que já Santo Inácio de Loyola formulava nos seguintes termos: “Orar como se tudo dependesse de Deus e trabalhar como se tudo dependesse de nós”. Santo Agostinho remata esta reflexão ao exortar: “Que o pecador se condoa do seu pecado, e se alegre por se condoer”. Quem experimenta a dor de ser pecador (grande ou pequeno pecador) já está sendo movido pela graça. Alegre-se, pois, e continue teimando na procura da santidade, pois procurar a perfeição já é perfeição, como diz São Bernardo.

 

Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
 

Texto publicado na Revista Pergunte e Responderemos nº 540, Junho/2007.

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