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"Aqueles que amo..."
(Ap 3, 19)
Em Ap 3,19 lê-se estranha afirmação do Senhor Jesus:
"Aqueles que eu amo, eu os repreendo e castigo". O "bom senso" humano diria:
"...eu os privilegio e defendo". O aparente paradoxo deve ser entendido à
luz de Hb 12,3-13. O Apóstolo aí fala do pai que, desejoso de educar o filho,
o censura e castiga para que aprenda os bons costumes; ao contrário, o pai
desinteressado do filho bastardo, deixa-o à vontade justamente porque não
lhe quer bem. Ora Deus é esse Pai que, por amar seus filhos, sabe enviar-lhes
provações salutares.
Perguntará alguém: por que é necessário
educar mediante provações e castigos?
A resposta não é difícil. Em cada um de nós
existem duas criaturas: a velha criatura nascida do primeiro pai pecador, e a nova criatura,
gerada pelo Batismo. A primeira é portadora de cobiças desregradas e
egoístas, ao passo que a segunda implica comunhão de vida com Cristo; deve
assumir o espaço do velho homem, configurando o cristão à imagem de
Cristo. Ora isto não se faz senão mediante luta e privações que obrigam a
sobrepor ao velho homem os sentimentos do Cristo Jesus. Já os antigos gregos
diziam páthos máthos, ou seja, o sofrimento é escola e
educação. Cada cristão é intimado a assumir essa luta,
mortificando o que haja de desregrado em seu íntimo. Para nos favorecer nesse combate,
o Pai do céu envia-nos ocasiões de exercitar nossa fé e fidelidade,
enfrentando obstáculos, às vezes, difíceis. Longe de significar que Deus esqueceu
seu filho ou sua filha, essas tribulações significam um gesto de amor da parte do Pai
celeste; Ele só quer o bem dos filhos, que Ele não deixa correr às soltas,
como correm os bastardos.
Sendo assim, o cristão visitado pela mão do Divino
Artífice há de se lembrar das palavras bíblicas:
"Meu filho, não
desprezes a correção do Senhor, pois o Senhor corrige a quem Ele ama e castiga todo
filho que Ele acolhe; é para a vossa correção que estais sofrendo e é como
filhos que Deus vos trata. Pois qual é o filho que o pai não corrige? Se estais
isentos dessa correção sois bastardos, e não filhos"
(Hb 12,3-8).
A consciência destas verdades suscita no cristão até mesmo a alegria ao sofrer; ele sabe que é um precioso objeto do amor divino,...
de Deus, que "ama os que dão com alegria" (2Cor 9,7).
Possam estas reflexões ser úteis aos que atualmente
sofrem como também àqueles que um dia o Senhor chamará para carregar
um pouco da sua Santa Cruz!
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Texto publicado na Revista Pergunte e Responderemos nº 541, Julho/2007.
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