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A pérola preciosa
(Mt 13, 45s)
Jesus compara o Reino dos Céus a uma
pérola preciosa que um mercador descobriu e adquiriu em troca
de todos os seus bens (Mt 13, 45s).
Era muito caro aos antigos o simbolismo da
pérola, pois ela é algo de misterioso: muito bela, mas
escondida no mar, dentro de uma ostra. Os antigos eram levados a crer que tal
realidade resultava de um portento,... portento que ocorre quando um raio de
sol consegue penetrar na água do oceano e a torna fecunda.
A pérola assim seria o fruto do casamento do fogo com água;
aí estaria a explicação do seu valor.
Transpondo este simbolismo para a esfera cristã,
verificamos que tem muitos significados. Antes do mais, diremos que Cristo
é a pérola preciosa por excelência, pois tem origem na união
de Deus Filho todo-poderoso com a frágil natureza humana, união na
qual ele é o Esposo e ela a esposa.
O Reino dos céus - que tem início no
coração de cada cristão - prolonga o portento, apresentando
dois aspectos:
1) é paradoxal, como paradoxal é, para "o bom senso humano", o plano de Deus. Diria São Paulo:
"Trazemos um tesouro em vaso de argila" (2Cor 4, 7). É o Imortal
dentro do mortal, o Novo dentro do velho, o Já dentro do
ainda não.
2) A pérola está oculta
dentro de uma concha no fundo do mar, de
modo que só quem olha em profundidade a
descobre. Isto quer dizer que somente a
fé percebe o tesouro latente no íntimo
do cristão; a mera razão humana não o
alcança.
Quem toma consciência de que existe esse tesouro
latente no íntimo do fiel cristão, fará como fez o mercador da
parábola: com grande alegria trocará tudo o que lhe esteja
à disposição por aquela pedra preciosa; trocará
a multiplicidade dispersiva pela unidade e, embora aparentemente empobrecido,
saberá estar mas rico do que antes. Há várias vias
ou vocações (o matrimônio, a vida consagrada, o ministério sacerdotal...)
para chegar ao pleno gozo da pérola preciosa, mas existe uma só
meta para todos. A caminhada pode ter seus momentos difíceis, pois implica
orientar-se por valores que os olhos não vêem. Acode, porém, o
Apóstolo observando: "O que se vê, é passageiro; o que não
se vê, é eterno" (2Cor 4,18). Muito sabiamente diz o Apóstolo
três vezes: "O justo vive da fé" (Rm 1,17; Gl 3,11; Hb 10,38).
De resto, o tesouro oculto vai-se revelando aos poucos a todo coração
sincero e fiel, de tal modo que, ainda caminheiro, o cristão antegoza, de
algum modo, a fruição do eterno.
O mês de outubro é o mês do
Rosário. Seja cada conta do Rosário
o penhor de que o(a) orante mais
e mais descobrirá a pérola preciosa que está latente no
fundo desse mar que é a Igreja (início do Reino) e que é
também o fundo do coração do cristão!
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Texto publicado na Revista Pergunte e Responderemos nº 508, Outubro/2004.
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