"Vem para o Pai"

                                            (S. Inácio de Antioquia)

O mês de novembro se abre com a Comemoração de todos os Fiéis Defuntos e a celebração de todos os Santos. São duas datas que nos levam a pensar sobre o sentido da vida. Uma sentença de Jesus pode ajudar-nos a compreender o significado da nossa existência: "Saí do Pai e vim para o mundo. De novo deixo o mundo e vou para o Pai" (Jo 16,28). Todo cristão pode repetir estas palavras, fazendo-as suas.

"Saí do Pai". Com efeito; desde toda a eternidade o Pai do céu me concebeu em sua mente... e concebeu como expressão de sua perfeição, com os talentos que me caracterizam. No momento oportuno Ele me deu existência neste mundo, onde me encontro como caminheiro.

"Vim para o mundo". O ser humano está neste mundo para desenvolver suas potencialidades, que são muitas. É uma criatura inquieta, cheia de anseios, à procura de respostas. Alguns sabem definir o que desejam, outros não o sabem, mas todos buscam... O tempo de caminhada no mundo é o tempo oportuno, tempo em que procuramos atingir a estatura do Homem Perfeito, configurado ao Primogênito Jesus (Ef 4,13; Rm 8,28). Infeliz aquele que se contenta apenas com seus bens materiais e nada mais aspira. E feliz aquele que se agita como a agulha magnética atraída por seu Norte invisível. Tal anseio é como que a marca do Fabricante, que colocou no íntimo de todo homem a sede do Infinito.

"De novo deixo o mundo". Deixar o mundo presente é comumente chamado "morte". Esta não é uma ruptura, mas a consumação da caminhada terrestre a tal ponto que São Paulo podia dizer: "Para mim o viver é Cristo e o morrer é lucro" (Fl 1,22). S. Inácio de Antioquia († 107), condenado às feras no Coliseu de Roma, escrevia aos fiéis daquela cidade: "Escrevo a vós, possuído do amor da morte...; há em mim uma água viva que fala e dentro de mim diz: ‘Vem para o Pai’" (Aos Romanos 7,2).

Quem se compenetra destas verdades, pode chegar a desejar para breve o encontro com o Pai ou com a Beleza Infinita. Aliás, é conveniente pensar em tais coisas precisamente quando parecem estar distantes, pois, quando ocorrem os primeiros sintomas do fim, poderá o cristão estar esclerosado e incapaz de meditar profundamente. Não lhe aconteça o que aconteceu ao ricaço da parábola de Lc 12, 16-21: armazenou todo o seu trigo e julgou-se garantido para comer e dormir à vontade, quando na noite seguinte o Senhor lhe disse: "Insensato, devolve a tua alma!"; foi para o Além deixando tudo quanto armazenara; a morte foi, para ele, um susto e não a consumação de sua caminhada.

E como o cristão se prepara para aquele encontro final? Prepara-se levando uma vida santa, na penumbra da fé de cada dia, que se vai dissipando aos poucos para ceder à visão face-a-face.

Possa o mês de novembro ser, para todos os caminheiros, a ocasião de mais lúcida tomada de consciência do sentido de sua trajetória!

Pe. Estêvão Bettencourt, OSB

Texto publicado na Revista Pergunte e Responderemos nº509, Novembro/2004.

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