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"Esperava
a cidade... cujo arquiteto é Deus"
(Hb
11,10)
Estas palavras, extraídas da epístola
aos hebreus, referem-se ao Patriarca Abraão: residiu como estrangeiro
na Terra Prometida, assim com Isaque e Jacó; "pois esperava a
cidade que tem fundamentos; cujo arquiteto e construtor é o
próprio Deus" (Hb 11,9-11).
Esta atitude é prototípica e modelar
para todo cristão. Este tem sido dito "peregrino do
Absoluto" (Léon Bloy), alguém que procura o Infinito ou
o Absoluto. Na verdade, triste é o caso de quem se dá
por satisfeito com os bens que recebe nesta vida; são todos
ameaçados pela
deterioração e pela morte; são todos
exíguos demais para preencher a capacidade do homem. Daí
um natural anseio por algo que os olhos não vêem,
mas que deve existir no fim da caminhada terrestre.
A rotina de cada dia, com suas múltiplas
exigências de dever cumprido sem cessar, muito contribui
para amortecer no cristão a recordação
e a santa demanda do Absoluto; este parece muito pálido e
pouco atraente frente ao colorido e ao sonoro das coisas temporais.
Mas é preciso que regularmente o cristão
medite nessa sua capacidade de Infinito (o tempo de Páscoa é
muito convidativo para isto). Ai daquele que, como o ricaço do
Evangelho tem boa mansão, boa mesa, boas vestes e se julga assim
realizado a ponto de ignorar o pobre Lázaro deixado à
porta de sua casa, sofrendo fome e sede; tal "felizardo"
morrerá sem fome dos valores transcendentais, passando por tremenda
decepção (cf. Lc 16,19-31). É preciso que com grande
fome e sede do Eterno respondamos ao chamado do Pai no
último dia de nossa caminhada terrestre.
Estas considerações nada têm de
alienante, como se diz, pois não dispensam o cristão de seus
deveres profissionais; justamente por trazer o nome de Cristo, o cristão
há de ser um ótimo profissional, mas profissional que sabe estar a
caminho daquilo que "o olho não viu, o ouvido jamais ouviu e o
coração jamais percebeu" (cf. 1Cor 2,9). Conclui Santo Agostinho:
"Então será a alegria plena
e perfeita, a felicidade perpétua; quando já não tivermos
por alimento o leite da esperança, mas o alimento sólido da realidade.
Também agora, antes de chegarmos a essa Ventura ou antes que essa Ventura chegue
a nós, alegremo-nos no Senhor porque não é pequena a alegria da
esperança que nos garante a futura realidade" (sermão 21,3).
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Texto publicado na Revista Pergunte e Responderemos nº
551, Maio/2008.
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