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"Teu
olho é mau porque eu sou bom?"
(Mt 20,15)
A parábola dos operários que
trabalharam, uns menos, outros mais, e são pagos com a mesma
moeda (Mt 20,1-16), surpreendente como é, põe o leitor
diante do grandioso mistério de Deus. Com efeito; um dos
operários da primeira hora protesta contra o patrão;
ao que este responde: "Amigo, não cometo injustiça.
Combinamos a paga de um dinheiro; ei-lo aí. Acontece,
porém, que tenho muito dinheiro; é meu, e quero
dá-lo gratuitamente. Ora, por ser eu gracioso
e magnânimo, não entendes e te aborreces.
Tu reclamas não porque eu seja menos santo do que tu, mas
precisamente porque ultrapasso as tuas categorias de santidade;
a gratuidade não é comum entre os homens, mas é
meu típico modo de proceder".
A parábola vale também para os
tempos atuais. Há quem reclame de Deus, que permite haja
tantas desgraças no mundo: guerras, enchentes,
terremotos, crimes... "Se eu fosse
Deus, o mundo seria diferente; não haveria os infortúnios
que ora acontecem". O Senhor Deus lhe responderia:
"Tu te irritas porque não me compreendes. E não me
compreendes não porque eu seja inferior a ti, mas porque
sou infinitamente mais sábio e santo que tu. Sou Deus e não
um Grande Homem ou um Grande Banqueiro". Um Deus
criticável ou menos sábio e santo do que
o homem não é Deus: ou creio num Deus
que é muito mais perfeito do que eu e, por isto, é
para mim, misterioso ou não creio em Deus, pois Ele é
definido, pela razão humana mesma, como a Suma
Perfeição.
Semelhantes
ponderações nos são sugeridas pelo livro
de Jó: este homem reto e temente a Deus
é acometido de grave moléstia; os amigos
o acusam de ser um grande pecador e merecer tal castigo.
Jó replica, afirmando ter sido sempre fiel a Deus.
Donde surge a questão: por que o justo
sofre? Não seria o sofrimento a punição
do pecado? Diante do impasse Jó apela para Deus; ele é
acusado injustamente; queira Deus explicar o enigma. Seria o
Todo-poderoso um tirano que se compraz em martirizar os seus
fiéis, como chegou Jó a insinuar em Jó 10, 1-22?
Em resposta o Senhor não apresenta algum porquê,
mas vai apontando a grandeza e a beleza esparsas pelo universo:
as constelações, a flora, a fauna (o rinoceronte,
o hipopótamo, o leão, o íbis, o galo...) e
pergunta a Jó: "Onde estavas quando criei isso tudo?
Conta-me...". Jó então reconhece:
"Falei de coisas que não entendia, de maravilhas que
me ultrapassam... Por isto retrato-me e faço
penitência" (Jó 42,3.5).
A resposta dada a Jó dirige-se
também ao homem de hoje: Deus vê muito mais longe
do que o homem; Ele entende o que a criatura não entende.
Em consequência deverá dizer-se: não compete
ao homem criticar Deus, fazendo-se de maior do que Ele, mas, sim,
adorar os misteriosos desígnios do Criador, que, por
definição, não pode falhar. Passe da fé
infantil no "Deus Papai Bonachão"
para a fé adulta, que, com Jesus, rejeita as perspectivas
meramente humanas de um Reino de Deus na fartura,
na isenção de acidentes e na hegemonia sobre os demais
reinos (cf. Mt 4, 1-11) a fim de abraçar o plano do Pai,
que passa pela Cruz para chegar à Glória celeste
(cf. Hb 12, 2-4).
O dia do juízo final revelará
aos homens os caminhos da Providência Divina em meio às
limitações das criaturas.
Pe. Estêvão Bettencourt, OSB
Texto publicado na Revista Pergunte e Responderemos nº 507,
Setembro/2004.
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